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Resenha Revista HIstória Viva Agosto 2010

Posted by dealalves em agosto 29, 2010

A revista História Viva é uma revista que aborda detalhadamente assuntos tanto da história do Brasil quanto do mundo.

Eu particularmente sempre amei história desde a época do ginásio, era algo que eu nem precisava estudar para ser aprovada. E esse gosto se repetiu na questão de filmes pois eu adoro um filme de época.

Eu acredito que a história nos ensina a compreender melhor o presente, a entender a conjuntura atual de mundo e para onde ela caminha, as motivações dos países, porque e com quem eles se aliam, além de conhecer melhor nossas próprias origens e a origem das coisas, os símbolos e seus significados, enfim, é um assunto muito rico.

Segue abaixo resumo das matérias que mais me interessaram:

Entrevista com Nicolau Sevcenko

Nicolau Sevcenki é o autor do livro A revolta da vacina. A obra trata de um levante que paralisou o Rio de Janeiro por uma semana entre 9 e 15 de novembro de 1904 e foi visto pelas autoridades da época como uma reação irracional à campanha de vacinação contra a varíola promovida pelo governo federal.

Longe de ser um ato de insanidade, a insurreição era um grito desesperado da população contra as reformas autoritárias que pretendiam remover os pobres do Rio de Janeiro para remodelar a cidade de acordo com os interesses do novo modelo urbanístico do capitalismo internacional.

A Revolta da Vacina não foi nem de longe tão brutal quanto a repressão que veio depois do fim do movimento. A polícia passou a percorrer as ruas prendendo todas as pessoas que não tivessem endereço fixo ou vínculo empregatício permanente – isso em uma cidade tomada por uma grave crise de habitação e desemprego. Os detidos eram, então, simplesmente jogados dentro de navios e lançados nas profundezas da Amazônia, sem qualquer orientação e sem as mínimas condições de sobrevivência. Tratava-se, portanto, de tirar essa população da cena histórica e jogá-la o mais longe possível, para que desaparecesse.

Como se sabe atualmente, o embrião do processo de formação das favelas foi o problema social anterior, a revolta de Canudos. Quando retornaram ao Rio de Janeiro, os soldados recrutados para lutar na Bahia ficaram um longo tempo esperando por lagum tipo de indenização ou realocação, que acabou nunca vindo. Enquanto aguardavam, eles se instalaram na região do morro da Previdência e batizaram o local de “morro da Favela”, pela semelhança do local com o entorno de Canudos. Daí vem o nome. A reforma urbana do Rio de Janeiro intensificou o processo de favelização ao provocar a expulsão e massa da população pobre da cidade, que se concentrava na região central, próxima ao porto, sem oferecer qualquer tipo de indenização. A alternativa que sobrou para essas pessoas foi se instalar, de forma precária, nas áreas mais íngremes, terras devolutas que não podiam ser usadas pelo mercado imobiliário. A população foi se estabelecendo em péssimas condições, sem a menor infraestrutura, utilizando a matéria-prima que carava nas ruas, ao redor do porto.

São Paulo, de certa maneira,  é diferente de todo o restante do Brasil porque, em vez de criar focos de pobreza ao lado de áreas ricas, a elite paulistana expulsou seus miseráveis para a periferia. Isso criou uma falsa ilusão de uma cidade próspera nas áreas centrais. Enquanto o padrão no Brasil é esse convívio de riqueza e da miséria, em São Paulo conseguiu-se criar uma área privilegiada no núcleo central e empurrar as pessoas pobres para a periferia. Dessa forma, é possível para alguém ter a enganosa percepção de uma cidade relativamente homogênea, o que está longe de ser realidade: é uma metrópole tçai desigual, tão excludente, tão agressivamente injusta como qualquer outra cidade brasileira.

A idéia de abrir a área central da capital carioca era, em grande parte, para dar essa respiração mais confortável para o governo, que vivia acossado pela população mais pobre, e em um estado de motim potencial. A reforma urbana e a repressão à revolta da Vacina de fato tiraram essa pressão populacional, o governo ficou mais isolado, com pefeito controle do Rio de Janeiro. A decisão posterior de mudar a capital para Brasília visava isolar completamente a elite política de qualquer contato com a sociedade viva do país.

Biografia de Leon Trotsky

Leon Trotsky entrou para a história não somente por ter sido um dos principais dirigentes da Revolução Russa de 1917, mas também por ter lutado contra a burocratização que levou à formação, na década de 1930, do regime personalista e repressivo da União Soviética de Stalin, responsável por milhões de mortes.

Trotsky comparou os três principais processos revolucionários da era contemporânea ( a Revolução Francesa de 1789, as revoluções européias de 1848 e o levante na Rússia de 1905: “O gigantesco esforço que necessita a sociedade burguesa para certas as contas radicalmente com os senhores do passado só pode ser conseguido com a poderosa unidade da nação inteira, sublevada contra o depotismo feudal, ou com uma evolução acelerada da luta de classes dentro da nação que se emancipa.” Para a Rússia de inícios do século X com um capitalismo desenvolvido no interior do Antigo Regime, só restava a última possibilidade.

Na Guera Civel que se seguiu, 500 mul soldados “brancos” – remanescente do antigo exército czarista comandados por oficiais reacionários ou por aventureiros movidos por ambições e corrupção – enfrentaram o Exército Vermelho. Este, criado por decreto em 15 de janeiro de 1918 e chefiado por Trotsky, então Comissário de Guerra, era composto por 5 milhões de soldados, mal armados, mal abastecidos e mal dirigidos militarmente, mas com moral superior e com liderança política. Este foi o fator decisivo da vitória vermelha: a masas camponesa escolheu os bolcheviques porque deles esperavam a terra; um sucesso “branco” levaria ao retorno dos antigos proprierários.

Na combalida Rússia soviética, saída de sete anos de guerra mundial e guerra civil, Lenin diagnosticou o fenômeno burocrático e se insurgiu contra ele, defendendo a renovação periódica dos dirigentes, a volta ao campo ou às fábricas e a substituição da nomeação pela eleição.

Nos anos seguinte a morte de Lenin, Trotsky, seus colaboradores e seus partidários mantinham viva a bandeira do bolchevismo. A essência do “trotskismo” consistia na defesa das ideias de Marx e de Lenin, na luta pela democracia operária e no compromisso resoluto com a causa da classe trabalhadora internacional.

Nas condições criadas pela crise econômica mundial de 1929, que definiram um novo papel para o Estado na defesa da estabilidade da ordem capitalista, o nazismo adquiriu características peculiares, e Trotsky as analisou de modo pioneiro. Para ele, o Estado burguês agia para a manutenção artificial da pequena burguesia, que ruía em velocidade acelerada. Diante da incapacidade do proletariado de derrubar a ordem social vigente, foi o capital financeiro que, no intuito de preservar sua dominação, encontrou espaço para recrutar a decadente pequena burguesia para as fileiras do facismo.

Ameaçado por todos os lados, o revolucionário russo foi finalmente assassinado no México em 1940 a mando de Stalin. O atentado não foi uma vingança pessoal, nem um “ajuste de contas” entre facções “comunistas”, mas um fato político de primeira grandeza. A burocracia da URSS atuou em prol da ordem burguesa mundial, depois que esta aprovou o terror stalinista.

Dossiê Babilônia

Transformada pelo famoso rei Hamurábi no centro de um império no século XVIII a.C, tornou-se um dos polos comerciais e políticos do Oriente Médio. Após uma série de altos e baixos, viveu o auge de seu poder durante o reinado de Nabucodonosor II, no século VI a.C, quando voltou a controlar a antiga Mesopotâmia. Essa idade de outro, porém,  durou pouco. Conquistada em 539 a.C pelo rei Ciro da Pérsia, a Babilônia desapareceria, a partir do século IV a.C sob as areias do que hoje é o Iraque.

Na verdade a Babilônia nunca foi completamente esquecida. Já no século XII d. C, um rabino espanhol chamado Benjamin de Tudela dizia ter identificado a cidadela de Nínive e acreditava ter reconhecido a mítica Torre de Babel.

A situação mudaria radicalmente em 1798, com a chegada de Napoleão Bonaparte ao Egito. Ao verem sua principal rota de acesso terrestre ao Oriente bloqueada pelos franceses, os ingleses foram obrigados a buscar outra forma de contornar o continente africano por terra para chegar às suas possesões na Índia.

O ínicio do século XX assistiu à chegada dos alemães e americanos ao palco da arqueologia oriental. Ao longo dos 80 anos seguintes, os alemães escavaram o sítio da Babilônia, até que Saddam Hussein deu início ao projeto de reconstrução da antiga cidade de Nabucodonosor. A partir de então, vestígios milenares foram deliberadamente adulterados para exaltar a figura de Hussein. Com a invasão americana em 2003 a situação só piorou, já que os oficiais das Forças Armadas dos Estados Unidos foram acusados de montar acampamentos sobre sítios arqueológicos, danificando permanentemente boa parte do patrimônio histórico iraquiano.

O falecido Saddam Hussein esforçou-se para gravar seu nome nas próprias muralhar da Babilônia. A exemplo do curso Saladino, o líder iraquiano de Tikrit reinvindicava o estatuto de herdeiro em linha direta de Nabucodonosor II soberano que conquistou Jerusalém no século VI a.C.

No século VI a.C, o viajante que visitava o sul da Mesopotâmia se surpreendia com uma impressionante metrópole às margens do rio Eufrates. Suas fortificações e santuários podiam ser avistados de longe, e em seu porto se cruzavam as principais rotas comerciais. Era a Babilônia.

Viviam-se os dias de glória do rei Nabucodonosor II, quando a cidade era o centro de um vasto império e maravilhava os homens da época. O profeta Isaías a descreve na Bíblia como “o ornamento dos reinos, a altiva joia dos caldeus (dinastia então no poder).”

Sua história começa no ínicio do sefundo milênio antes de nossa era, quando um povo de origem semita, os amoritas, se estabeleceu no delta do rio Eufrates e fundou uma cidade-estado. O núcleo original de povoamento se expandiu rapidamente, e, no século XVII a.C, esse centro urbano já rivalizava com importantes cidades vizinhas.

Foi nessa época que o rei Hamurábi assumiu o trono, criou o primeiro código de leis da humanidade e organizou um Estado não mais baseado nos laços familiares, mas assentado em um direito universal ao qual toda a população estava submetida. O Código de Hamurábi foi o primeiro passo para que a Babilônia deixasse de ser apenas uma cidade e se tornasse um império.

Por mais de dois séculos, esse reino dominou a Mesopotâmia, até que em 1595 a.C a capital foi saqueada pelos hititas. Debilitada, a cidade foi conquistada por um povo vindo das montanhas do atual Irã, os cassitas, que fundaram uma nova linhagem real.

No final dessa dinastia, no século XII a.C, a cidade já contava com dez bairros residenciais, 43 templos e oito portas espalhadas pelas fortificações que protegiam o centro urbano.

No entanto, na década de 1150 a.C, o último rei cassita foi deposto por invasores elamitas vindos do sul do atual Irã. A Babilônia entrou, então, em decadência e acabou dominada pelo Novo Império Assírio, que emergiu como a potência regional na Mesopotâmia no século X a.C. A antiga capital de Hamurábi só reconquistaria a independência em 612 a.C, quando Nabopolassar, fundador da dinastia dos caldeus, assumiu o controle da capital assíria. Em 605 a.C, seu filho, Nabucodonosor II, o sucedeu no trono e fez da Babilônia novamente o centro de um grande império.

Foi durante seu reinado, de 605 a.C a 562 a.C, que a Babilônia atingiu o apogeu. Nesse período, o soberano promoveu grandes reformas, embelezando sua capital com palácios, templos e jardins, mas sem modificar o desenho urbano aprovado pelo deus Marduk.

A cidade formava então um retângulo de aproximadamente 1,5 km por 2,4 km. O palácio de Nabucodonosor II media cerca de 325 por 220 metros, e o complexo de tempos era ainda mais gigantesco. Porém o mais esplêndido era sem dúvida a Via Processional, a passarela era ladeada por muros cobertos de tijolos vitrificados amarelos dispostos sobre o azul profundo do lápis-lazúli e decorados com imagens de leões e dragões.

Graças à construção de uma importante rede de canais de irrigação, uma agricultura rica e variada desenvolveu-se no centro urbano e nos arredores. Graças ao intercâmbio de bens e de pessoas, a Babilônia tornou-se uma cidade cosmopolita, situação fielmente descrita pela confusão de línguas presentes no relato bíblico da torre de Babel. Ali se misturavam mercadores, mercenários e administradores, mas também escravos e deportados, como os judeos, levaos à força para a cidade após a conquista de Jerusalém em 586 a.C.

Além da prosperidade econômica, a Babilônia foi um importante centro cultural. As elites locais desenvolveram uma ciência sofisticada, que se destacou particularmente nos campos da astronomia e da medicina. Mesmo sem dispor de instrumentos de medida ou de cálculo, e muito menos de telescópios, os sábios locais representaram os movimentos das estrelas e dos planetas em mapas celestes, feitos a partir da observação dos atros a olho nu.

Mesmo depois de conquistada pelo rei Ciro II da Pérsia, em 539 a.C, a cidade manteve sua posição de centro cultural e político de primeira grandeza até o século IV a.C, quando perdeu o status de metrópole regional e entrou em lenta decadência. Com o tempo, a cidade se esvaziou, e do antigo esplendor da Babilônia só restara as ruínas que hoje repousam às margens do rio Eufrates.

Nabucodonosor II nasceu em 634 a.C, em uma Babilônia dominada pelo Império Assírio. A situação, no entanto, estava prestes a mudar. Ainda criança, ele viu seu pai, Nabopolassar, se autoproclamar rei em 625 a.C e liderar a revolta que libertou a cidade 13 anos depois.

No mesmo ano em que assumiu o poder, Nabucodonosor II derrotou o exército do faraó Neco II estendendo os domínios do novo império até o mar Mediterrâneo e acabando com os planos dos egípcios de se apoderar dos antigos domínios assírios. Após essa vitória, avançou sobre as cidades da Síria e da Palestina, então sob a esfera de influência do Egito.

Entre seus alvos estava Jerusalém, capital do reino de Judá e importante centro político regional. Nabucodonosor II lançou o primeiro ataque contra a cidade em 597 a.C, mas só a conquistou definitivamente dez anos depois, quando mandou destruí-la e deportou a maior parte de seus habitantes para a Babilônia. Com isso, a antiga capital de Hamurábi voltou a ser o centro de um grande império, que se estendia por todo o oriente médio.

Durante os 43 anos que esteve no poder, Nabucodonosor II construiu templos e palácios, restaurou antigas casas reais na capital e ainda revitalizou diversas cidades no sul do império.

A residência real media 322 metros de comprimento por 190 metros de largura e ficava ao lado da muralha norte, estendendo-se entre a Via Processional e uma fortificação às margens do Eufrates (cujos muros tinham 25 metros de espessura).

Outra construção impressionante era o sistema de muralhas que protegia a capital, formado por duas fileiras de fortificações, uma externa e outra interna. O muro  exterior, mais imponente, dava ao visitante a impressão de uma cidade inexpugnável. Com mais de 11 km de comprimento corria ao longo da margem direira do Eufrates e cervava o centro da cidade, indo até o Palácio de Verão de Nabucodonosor II, localizado ao norte do núcleo urbano.

Esse complexo defensivo era formado por três muralhas de 30 metros de largura. o topo formava uma avenida larga o suficiente para permitir a circulação de três carros ao mesmo tempo, o que possibilitava o abastecimento rápido de qualquer ponto da cidade. na fachada, 200 torres de guarda foram erguidas a intervalos de 44 metros.

Pequenas torres se espalhavam também pela fortificação interna, que se estendia por mais de 6 km e era formada por dois muros construídos com tijolos de barro cru. Um largo fosso, com cerca de 50 metros, completava o sistema defensivo. A água do Eufrates era desviada para abastecê-lo.

Morto em 562 a.C, Nabucodonosor II deixou uma Babilônia no auge de seu poder, mas não teve sucessores à altura. Seus filhos se envolveram em uma série de disputas, inaugurando um período de crise que só terminaria com a conquista da cidade pelo rei Ciro II da Pérsia, em 539 a.C. Era o fim do último império babilônico.

Caminho de Santiago de Compostela

O apóstolo de Jesus conhecido como são Tiago era irmão de João Evangelista, foi testemunha da transfiguração e seria decapitado entre 42 e 44, reinado de Herodes Agripa. Desses fatos se originaria a lenda católica de são Tiago.

Após a morte de Cristo, contava-se, que Tiago partiu para o mar. Desembarcou no pequeno porto espanhol de Ira Flavia, depois Padrón. Lá viveu algum tempo antes de retornar à Judéia e ser martirizado. Um drama para seus discípulos. Dois deles, Teodoro e Atanásio, transportaram seu corpo mutilado para em um veleiro sem leme. Entregando-se a clemência divina e aos ventos do mar alto, chegaram a Ibéria e, por acaso, a Ira Flavia, onde seu mestre outrora aportara. Eles o sepultaram a algumas léguas do litoral.

Falecidos, foram enterrados perto do apóstolo. Depois, sucederam-se os anos. Veio o esquecimento. Já não havia quem soubesse onde Tiago repousava. Até porque o povo tinha outras preocupações, já que seu país fora invadido pelos suevos, vândalos e muçulmanos.

No início do século IX, um eremita da região de Ira Flavia viu uma estrela desconhecida cintilar a noite toda acima de um campo. Ele avisou Teodomiro, seu bispo. Este mandou cavar o solo. Diante dele apareceu a sepultura perdida de são Tiago.

O rei Afonso foi reverenciar os despojos. mandou construir uma capela sobre a tumba. A multidão acorreu. Em breve, produziram-se milagres: os cegos enxergavam, os surdos ouviam, os paralíticos andavam. Maravilhados por tais prodígios, pastores e pescadores da Galícia batizaram o lugar de Compostela, “campo da estrela”.

O Caminho de Compostela se criou sob a égide de grandes ordens religiosas como a dos beneditinos, cirtercienses e agostinianos. Todos temiam a implantação do Islã nos feudos espanhóis. Criar uma rota, seguindo a tradição peregrina da época, parecia ser uma boa tática.

A situação geográfica de Compostela, na extremidade da Europa, a inscrevia nas estruturas do sonho e do imaginário. COm seus magálitos mergulhados no oceano, situava-se no finisterra galego, e toda finis terrae – fim da terra – evocava no inconsciente coletivo o fim e o recomeço do mundo, a passagem da matéria e suas formas moventes para o Espírito.

Dali em diante, os viajantes afluíram a Santiago. Reis, nobres, religiosos, alquimistas, artistas, burgueses, artesãos, mendigos, ladrões, pescadores e arrependidos que iam pedir a são Tiago uma grande graça ou perdão por um pecado. Todos portavam o mesmo costume: o chapéu adornado com uma concha, sinal distintivo do peregrino de Santiago.

Os empresários do submundo

No dialeto siciliano, a palavra “máfia” queria dizer belo, audacioso, autoconfiante. A Máfia era uma organização familiar, armada e secreta, surgida na década de 1840. Além da autoproteção e da cobrança de ” taxas de funcionamento” a comerciantes e empresários, os criminosos sicilianos controlavam as plantações de limões e laranjas.

Nas duas primeiras décadas do século XX, além dos limões, a Máfia exportou para a América dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças membros das famílias que fundaram a organização. Em 1930, os mafiosos sicilianos dominavam todas as atividades ilícitas em cidades como Nova York, Seattle, Chicago e Filadélfia, em terras do Tio Sam, fundaram a Cosa Nostra.

Um desse jovens e ambiciosos imigrantes era Charles “Lucky” Luciano, anscido na Sicília em 24 de novembro de 1897. Ele organizou a mais violenta gangue de Nova York (The Five Points Gang), especializada em assassinatos por encomenda e cobrança de dívidas. Trabalhava para os capi da família Genovese, uma das cinco maiores da Máfia nos Estados Unidos, mas não recusava pedidos dos demais chefes do crime.

Visionário, Luciano percebeu que a Máfia podia acompanhar o ritmo acelerado de crescimento dos Estados Unidos. Apostou no controle dos sindicatos de trabalhadores, promovendo ou contendo greves, ganhando dinheiro por meio de filiações, fundos de pensão e extorquindo os capitalistas.

No ínicio da década de 1950, os Estados Unidos viviam sua “era de ouro”, e a Máfia se aproveitou da prosperidade generalizada: faturava centenas de milhões de dólares por ano, não pagava impostos e era tolerada pelas autoridades governamentais. Um dos seus colaboradores mais notáveis era Joseph Kennedy, pai do futuro presidente John Fitzgerald Kennedy. Muitos outros políticos, incluindo governadores e senadores, estavam na folha de pagamento da Máfia.

A prosperidade legou a organização criminosa a investir em outroas terras, especialmente no Caribe e na América do Sul. Transformou Cuba na “Disneylândia” do jogo, da prostituição e do tráfico. Colocou dinheiro também nas lavouras de coca na Colômbia e no Peru, inaugurando a etapa dos cartéis da cocaína.

A coisa toda ia muito bem até que Fidel Castro derrubou o governo de Fulgêncio Batista, expropriou todos os cassinos e acabou com os mafiosos em Havana. A organização criminosa teve um prejuízo de US$ 1 bilhão em Cuba e jurou vingança: participou, com a CIA, de oito tentativas de assassinar Fidel.

Com a morte de Luciano a Cosa Nostra colteou a se dividir: os conservadores queriam continuar com a influência política, o jogo, as mulheres e as bebidas; os mais “modernos”, no entanto queriam inaugurar a etapa industrial do tráfico de drogas. E foram eles que ganharam a parada. Nosanos de 1960 e 1970, investiram furiosamente nas drogas, assumindo o controle das rotas da heroína do Extremo Oriente para a Europa e da cocaína da América Latina para os Estados Unidos e o Canadá.

Na América Latina, um homem poderoso era sócio da Máfia na exportação de cocaína. Em 1982, o megatraficante colombiano Pablo Escobar, chefe do cartel de Medellín, que produzia 60% da cocaína consumida no mundo, decidiu que o Brasil, além de corredor de passagem da droga, poderia se tornar um imporatnte mercado consumidor.

Governado por um general decadente, com um regime militar caindo pelas tabelas, reinando a corrupção e a especulação financeira, o Brasil parecia aos olhos de Escobar um território fértil para implantar o tráfico em níveis comerciais. Com a população concentrada em grandes cidades, uma juventude que despertava de duas décadas de tirania, com uma vida noturna agitada, o país reunia algumas das condições para o consumo de drogas em larga escala.

O traficante entrou em contato com o crime organizado local: os “banqueiros do bicho”, que também tinham um comando unificado, por meio do qual controlavam as apostas, o contrabando, a prostituição, as ecolas de samba e as casas noturnas. Como não queriam ser confundidos com traficantes, nossos mafiosos optaram por não se envolver com as drogas.

Das megociações com Pablo Escobar, resultou um acordo por meio do qual um contraventor de segundo escalão, Antônio José Nicolau, o Toninho Turco, fundou uma organização especialmente voltada para o tráfico, uma espécie de interface com o Cartel de Medellín. O problema era onde colocar as drogas? Os melhores locais eram evidentemente as favelas.

Porém essas comunidades pobres, estavam sob o controle de uma organização surgida nos porões da penitenciária da Ilha Grande, nos tempos da convivência de presos políticos com detentos comuns nas cadeias da ditadura militar. O nome do grupo era Comando Vermelho. Fortemente influenciado pela opção revolucionária dos anos 1970, o grupo se dedicava ao roubo armado e ao resgate de companheiros presos.

Aos poucos, em virtude de suas ações espetaculares, a organização sentiu o peso da repressão e perdeu alguns dos seus melhores quadros. Nas cadeias, os líderes do CV foram substituídos por bandidos, assim o caminho estava aberto para o acordo com Escobar.

Toninho Turco formou uma quadrilha de 90 integrantes, dos quais 61 eram policiais e ex-policiais. Chegou a traficar, junto com o CV, entre 8 e 15 toneladas de cocaína por mês, de acordo com os arquivos da Polícia Federal.

A morte de Toninho Turco é o fio da meada que nos leva a Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, que o substituiu nas negociações internacionais do tráfico de drogas.

Desde a criação do CV, após a anistia de 1979 inúmeras organizações do gênero surgiram no país como o PCC (Primeiro Comando da Capital.

As previsões de Pablo Escobar, de que o Brasil poderia se transformar em um enorme mercado consumidor de drogas, se confirmaram. Hoje somos o segundo maior mercado de entorpecentes do mundo ocidental. A Polícia Federal brasileira, entre as dez melhores do mundo, apreende de 8 a 9 toneladas de cocaína por ano, um recorde continental.

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